Análise da técnica da patinação na curva
Ramiro Riveros Laserna
Técnico Seleção Brasileira de Patinação de Velocidade

Ramiro é colombiano, licenciado em Educação Física e atualmente dedica-se ao treinamento de nossa seleção de patinação de velocidade. Colocamos o texto em "portunhol" evitando alterar qualquer expressão do autor. Estaremos a cada semana inserindo uma matéria nova do Ramiro, aguardem!


Foto: www.photoegrafia.com.br

Como em todo esporte, seja cíclico ou acíclico, a fundamentação técnica procura a economia do esforço, através de movimentos específicos e executados de modo que não se perca energia com movimentos que não cumprem nenhuma função dentro do gesto técnico.
É por isso que quando o patinador entra na curva é neste momento que o treinador deve ficar atento ao movimento.
A curva para mim é bastante importante, já que quando estamos em uma competição e ela define as provas.
Não adianta ter uma técnica de reta boa se na curva se perde o ritmo. A velocidade que você pega na curva lhe permitirá manter a velocidade na reta, permitindo em uma competição ter o controle da prova, só patinando tecnicamente na reta e rápido nas curvas.
No último Brasileiro (2007) para quem assistiu ficou evidente que não adianta ter um Double Push, uma técnica de reta boa, se não se tem uma curva boa. O atleta que ganhou os 1.000 m, ganhou mais pelo bom desempenho de sua curva que por sua velocidade ou potência na reta.

E assim como no aprendizado e prática da técnica é importante dar ênfase nos dois fundamentos: reta e curva.

Definição:

A técnica de curva é uma seqüência de empurres que permitirão, por efeito destes, um cruzamento das pernas, contrariando à força centrípeta, a isto nos chamamos de "trás-pe" (cruzamento do pé direito).
Na maioria dos patinadores quando estão iniciando este trás-pe o fazem mais por ação de um cruzamento de pé do que por uma força do empurre.
Assim o empurre do pé esquerdo leva ao cruzamento do pé direito.
A força para estes empurres vem pela ação dos músculos abdutores e extensores da articulação do joelho que permitirão que o Centro de Gravidade (CG) fique fora da Base de Sustentação, deixando o corpo numa inclinação para a parte interna da pista, inclinação esta que permitirá a execução dos empurres com efetividade.

Dividirei este fundamento em três fases:
1. Fase do empurre interno e apoio do pé direito
2. Fase do empurre externo e apoio do pé esquerdo
3. Balanço ou inclinação

1. Primeira fase: Empurre interno
É a força que faz o músculo abdutor da extremidade inferior esquerda sob a borda externa das quatro rodas do patins, deslocando-se do interno da pista para o externo ou de fora para dentro da base de sustentação. Esta ação permitirá que a extremidade inferior direita execute o " trás-pe", por ação do empurre e esticada do joelho do pé esquerdo. Para que isto aconteça, o pé direito deverá realizar uma projeção frontal sucessiva a esticada do joelho esquerdo,permitindo que o patins esquerdo continue uma trajetória lateral interna com as 4 rodas. Este movimento inicia no mesmo instante que termina o empurre da perna direita. Esta fase é divida em 4 etapas como mostrada na figura abaixo:

1.1 Inicio: O joelho está flexionado a 90º (foto #1) e mantendo uma linha reta nos pontos de apoio (ombro, joelho e patins) (foto #2) com as quatro rodas sob a pista, o braço esquerdo atrás e o direito na frente.
 
foto #1

foto #2
1.2 Descolar o patins direito (foto #3) este ponto o patinador deve ter em conta que só precisa levantar o patins da pista concentrando o movimento no empurre com o patins de apoio.  
foto #3
Simultaneamente se faz um empurre lateral com as quatro rodas do patins esquerdo mantendo o braço esquerdo atrás (foto#4).  
foto #4
1.3 Projetar o patins direito na frente continuando com o empurre do esquerdo. É importante saber que o patins direito não se cruza como citado anteriomente, simplesmente projeto ou direciono na frente, o patins esquerdo se aproximara ao direito só por ação do empurre. O patins direito deve abrir passagem para que o esquerdo complete a passada lateral com as quatro rodas (foto #5).  
foto #5

1.4 Extensão do joelho esquerdo e apoio do patins direito: ao terminar o empurre é importante que o joelho fique esticado (foto#6) garantindo que os pontos de apoio estejam alinhados (foto #7) e que a linha de gravidade passe pelo lado interno do joelho e do patins direito, ao final da extensão do joelho esquerdo o patins direito já haverá cruzado na frente do patins esquerdo e estará na posição de apoio e pronto para iniciar o empurre externo (foto#8)

foto #6
foto #7
foto #8

2. Fase de empurre externo ou de pé direito e de apoio do pé esquerdo
Começa imediatamente quando termina o empurre interno e de pé esquerdo. E acontece pela força que atua por ação do músculo abdutor da extremidade inferior direita, desloca o patins da parte interna da pista para o externo dela, na borda interna das quatro rodas do patins direito até deixar a articulação do joelho estendida. Esta ação permite que o patins da perna esquerda se mantenha no ar muito próximo ao chão, no mesmo instante o joelho da perna esquerda realiza uma pequena flexão e projeta esta na frente mantendo uma flexão de tornozelo.
O empurre deve ser lateral e com as quatro rodas fazendo força e não só deixando deslizar o patins (foto #9).

foto #9

Observe como para todo o percurso do empurre, o patins da perna esquerda esta no ar e o apoio se dá só no patins direito. É aqui onde cito que o apoio se dá por ação dos empurres e não por ação de um movimento da perna que está no ar. Neste caso o empurre do pé direito é quem permite que o patins do pé esquerdo procure a trajetória de descida com uma projeção linear, com semi-flexão das articulações do joelho e tornozelo.
Quando o joelho do pé que esta fazendo o empurre fica estendido, se dá o apoio do pé esquerdo nas quatro rodas ao mesmo tempo, ficando pronto para ser o apoio do peso do corpo, a linha de gravidade passa pela parte interna do patins de apoio (patins esquerdo).


Divido esta fase em duas etapas:

2.1
Início: pontos de apoio alinhados rodas do patins direito retas (foto# 10), linha da gravidade passando pelo lado interno do joelho e do patins direito, inicio da força do músculo abdutor da perna direita (foto#11).
Braço esquerdo ligeiramente atrás com flexão do cotovelo e braço direito estendido atrás (foto#12).
Joelho da perna esquerda em flexão, o olhar deve ser dirigido ao interior da pista (foto#13) e o corpo todo deverá estar numa inclinação em direção ao lado interno da pista.

2.2 Zancada:
Deslocamento do joelho do patins esquerdo em direção linear (foto #14) até que este alcance o chão, joelho e tornozelo flexionados (foto#15), apoio nas quatro rodas no mesmo tempo coordenado com um empurre forte do patins do pé direito em linha reta, não deixando virar o patins para o lado interno, mantendo os três pontos em linha reta (foto#16)

3. Balanceio ou inclinação

Desde o mesmo instante que o patinador entra na curva deve fazer uma inclinação no interno da pista, porém esta inclinação deve ser com todo o corpo, já que o erro mais freqüente nos patinadores é de levar os ombros para o lado interno, ou simplesmente o quadril, deixando os ombros para o externo na pista (eu falo para os meus atletas concentrar-se no umbigo, deixando este sempre o mais próximo da linha interna da pista). Isso permite que todo o corpo seja inclinado e facilite os empurres.
De uma boa inclinação depende uma boa curva e uma maior força no empurre.
Também um forte empurre nos servirá para contrariar à força centrípeta. É o que em muitos casos os patinadores tendem a contrariar esta força, deslocando a perna para fora da base de sustentação, o que leva a perder o alinhamento nos pontos de apoio, ou a deixar de patinar, só procurando estabilidade.

Uma boa técnica garantirá o desempenho ótimo das capacidades motoras e físicas. O atleta tem que adequar à técnica já que nestas ocasiões se introduzem movimentos involuntários, pelo acréscimento da velocidade, força ou resistência. Estas novas situações produzirão falhas técnicas que antes não existiam.

 

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